quinta-feira, 31 de maio de 2012

ESPELHO NO ESCURO

Foi tudo muito rápido, depois que eles escolheram a data do casamento. Passaram-se oito meses desde que ficaram noivos. A semana do casamento começava no dia seguinte e ela estava parada na janela com olhos perdidos, aquele olhar onde se parece não olhar para nada, mas na cabeça um universo gira em uma revolução de ideias desconexas num transe relaxante. Todo mundo já teve essa sensação na vida, um apagão por pensar inexoravelmente na vida. Janine, porém não tinha o olhar perdido ou absorto, simplesmente. Sua expressão denotava dúvida e tristeza, olhos caídos e semblante pálido, ao acordar desse transe restou um gosto amargo que ela não sabia explicar, os pensamentos desconexos apenas apontavam para uma direção rumo à tristeza. Questionou-se nesse momento se estava fazendo a coisa certa, mas deu de ombros numa atitude de desdém diante desse sentimento. Não conseguia dormir, e andava pelo quarto em penumbra como se procurasse algo, mas nunca encontrava. Tentava pensar em algo para tirá-la dessa angustia de sofrimento intempestivo e sem motivo aparente, mas nenhuma das coisas que a costumava agradar fazia sentido como solução para o que sentia. Resolveu avaliar sua vida e suas escolhas. Queria ter certeza de que era feliz e estava certa do que queria. Sempre foi difícil para ela escolher coisas simples, pois abominava a possibilidade da perda, uma escolha seria, necessariamente o abandono da outra, mas isso tinha sido resolvido há alguns anos com terapia, já não se considerava atormentada por sua visão particular do mundo, se adaptara. Seria uma recaída? Ou a constatação de que sua adaptação tinha como preço a sua felicidade? Dúvidas... Sempre dúvidas. Resolveu viajar em sua própria história como aprendiz de si mesmo. Pensou em criar um filme em sua mente com sua história, um curta metragem autobiográfico para apenas um espectador. Riu da ideia que teve, mas terminou num sorriso de curiosidade sobre como seria. Fechou os olhos e pensou em si mesma. Foi difícil no início separar as histórias da perspectiva pessoal para uma perspectiva de terceira pessoa. Teria que ser assim, pois na sua mente de pesquisadora, ela n poderia ser cobaia e analista do próprio experimento. Imaginou-se ao lado dela mesma nas imagens da memória que ia surgindo opacas como “flashback” de novela das seis. Aos poucos as imagens opacas se cristalizavam, definindo-se. Assustou-se. Entrava, sem querer, num estado de meditação profunda. E o filme começou. Janine não esboçou qualquer sentimento ou reação quando percebeu que, apesar de lúcida, vivia um sonho com um propósito, a busca do autoconhecimento. Deixou-se levar pelo fenômeno que ela mesma criara. O filme começou em uma casa aconchegante, porém escura, as imagens de tom fechado deram a ela um sentimento de medo, e ao olhar para o lado viu uma criança agachada chorando baixinho. Perguntou a ela se estava bem, mas não obteve resposta, descobriu ali que sua viajem ao próprio ego não incluía interação, mudou sua perspectiva para um estado de espírito mais avaliativo do que participante, investigando os sinais para entender, ou lembrar-se do que via, mas o filme era do tipo daqueles filmes do Alan Parker, cheios de símbolos que só são compreendidos depois da terceira exibição. Ela sabia que não teria a chance de ver novamente aquela sessão de “egocinema”, mas numa reviravolta nas cenas, a perspectiva do filme tornou-se mais ágil e ela passou rapidamente por momentos cruciais da sua vida. Viu-se entrar na escola pela primeira vez sentindo medo e excitação, curiosidade gostosa e desconforto. Os sentimentos pareciam a invadir enquanto via diferentes momentos de sua vida, era um fluxo de adrenalina constante mudando de concentração e de polaridade, forte e alegre, e rapidamente mudava para o medo, angustia e novamente alegria... uma montanha russa de sentimentos. Sentiu prazer nesse momento, e seu corpo estremeceu teve a certeza da sua sensualidade aguçada ao experimentar prazer intenso com a revolução de sentimentos. Entendeu ali que várias dúvidas e recatos seriam resolvidos nessa odisseia pessoal em curta metragem acelerado. Chorou consigo mesma nas tristezas, gargalhou nas alegrias e teve a oportunidade de pesar todos os seus momentos. Não se considerou satisfeita com o resultado pendendo para os sentimentos positivos, orgulhou-se de sua força nos momentos de obstáculos, e considerou-se vitoriosa ao final daquela explosão de sentimentos em fluxo, que apesar de não ter uma linha de George Clooney em Tudo pelo Poder, com seu roteiro claro e objetivo. Era uma história simbólica eminentemente sensorial, que acabou fazendo sentido, inexplicavelmente. Aprendeu ali a ler seus sentimentos. Linguagem rara que a colocara a partir dali como privilegiada entre os vivos por poder conhecer e entender a linguagem dos próprios sentimentos.- presente divino. Concluiu, sentindo-se plena e abrindo os olhos. Tinha certeza de ter vivido uma experiência sobrenatural e libertadora. Sentiu-se feliz. Não esqueceu o que não gostava em si, apenas aprendeu a enxergar seus feitos antes dos seus fracassos, suas qualidades antes dos defeitos, e seu defeitos como assinatura da unicidade de cada ser humano, pois o que nos diferencia e nos torna bonitos, são nossos defeitos e não nossas qualidades, pois essas tornam-se obrigação convencional da sociedade que valoriza a perfeição em detrimento da individualidade. Sentia-se renovada, e estava mesmo, em frente ao espelho no quarto escuro, agora gostava do que via, sentiu um estranho sentimento de saudades daquela mulher no espelho, a quem passara a admirar naquele momento, não podia dormir agora. Não estava mais incomodada com algo que não sabia bem o que queria, estava pensando no dia seguinte e nos preparativos para o casamento. Sentiu saudades de João, e sorriu. Mais uma dúvida tinha sido eliminada da sua mente, estava leve e feliz e nem percebeu que tinha sido objeto de um milagre, ou teria ela apertado os botões certos em sua cabeça na sua busca por si mesma? Dúvida irrelevante, agora que tinha se conhecido. Percebeu que a felicidade sempre esteve ao lado dela, mas estava coberta por um manto de dúvida e incerteza, agora, oportunamente caído.